Crítica: Voyeur da Netflix, é um retrato improfundo da mente de um sociopata

O documentário transforma em filme, o livro “The Voyeur’s Motel” do famoso escritor e jornalista Gay Talese, sobre Gerald Foos – um voyeur que comprou um hotel no Colorado no final dos anos 60 só para poder espiar os hóspedes. Em alguns momentos, o longa chega a ser bem didático, ao mostrar uma maquete do hotel na qual o próprio Gerald reencena o que fazia quando era dono do imóvel e, por alguns instantes conseguimos nos colocar em seu lugar e, até compreender de certa forma, sua tara e seu fetiche em observar a vida alheia, através de buracos estratégicos feitos no teto dos quartos.

Contudo, os que esperam uma análise profunda e completa da mente de um sociopata ou “tarado” como o próprio Foos se define, ficarão decepcionados. O documentário, nada mais é do que uma aula de jornalismo, desde quando nasce uma notícia, seu desenvolvimento, apuração de informações, das fontes até seu desfecho, mas principalmente dá lições sobre o que não se deve fazer como jornalista. A bela fotografia e as falas de Talese, reforçam a sensação de estarmos em uma aula, e apesar de não fazermos um “mergulho” na mente de um voyeur e ser um pouco maçante em alguns momentos, é um bom documentário.

O filme tenta dissecar a polêmica em torno do livro de Talese que, depois de apurar toda a história com Gerald e escrever a obra, deparou-se com entrevistas na imprensa americana que apresentaram incongruências entre o que seria publicado e o que realmente aconteceu. Com medo de publicar uma história errada, a editora acabou cancelando o lançamento do livro, mas depois voltou atrás. Os diretores Myles Kane e Josh Koury tiveram acesso íntimo a estes temas, entrevistando-os juntos e separados durante o que parece ser o auge da controvérsia, deixando no ar uma dualidade entre a realidade e a ficção.

Ao intercalar as versões do jornalista e do voyeur e ver a troca de acusações de um contra o outro, vemos claramente dois eixos na narrativa: o de Talese, que acusa Foos de voltar atrás no “acordo” que eles fizeram – para, segundo Telese: “eu contar a verdade e ele viver com isso” – e o de Foos acusa Talese de tratar o trabalho de sua vida como “um maldito jogo”. Para o famoso veículo Hollywood Reporter, o documentário mostra um “retrato provocador de um desastre jornalístico”.

Voyeur é um documentário que ao tentar focar nos detalhes sombrios desse distúrbio psicológico ainda pouco conhecido e explorado, acabou revelando a conturbada relação entre Talese e Foos, que por possuir boa lábia e disparar diversas frases de efeito durante o longa, colocou em dúvida a veracidade dos fatos e mostrou como um dos projetos mais ambiciosos do escritor desmoronou manchando sua histórica carreira.

 

 

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Colaboradora do Cinéfilos Anônimos, 31 anos, jornalista. Amante dos animais, da sétima arte e de todas as outras